Eu ainda não morri

Eu acordei e me senti pressionado contra meu sonho. Na minha cama, o suor se espalhava pelo meu lençol e meu travesseiro já estava no chão. Não lembrava que horas eu havia ido dormir na noite passada, mas aposto que foi algo em torno de 1 da manhã e 3 horas. Junto com meu travesseiro havia uma garrafa de vinho vazia atirada ao chão.

Sentado na cama, sentindo um pouco a ressaca, me senti triste. Tentei lembrar-me de meu sonho e infelizmente lembrei. Senti um gosto amargo de morte prematura enquanto procurava por meus óculos no criado-mudo.

No sonho, eu estava em uma velha escola com uma velha amiga. Com essa minha amiga estavam atuais colegas dela. Um deles reconheci e acenei, aos outros apenas fingi um sorriso amarelado. Estávamos no auditório dessa escola e parecia algo muito importante. Sentado ao lado dela, ela começou a falar:

— Desista dela, querido — disse ela, referindo-se à uma moça por quem andei suspirando ultimamente.

— Por que?

— Ele me contou algo sobre ela, que ela não havia lhe contado — disse minha amiga, apontando ao primeiro menino da fileira das poltronas do auditório.

— Hum… O que?

— Ela está namorando com outro rapaz.

Naquele momento, o sonho materializou-se dessa vez em outro lugar. Eu estava com uma outra amiga, trancado em uma gaveta. Era uma imensa gaveta ou éramos minúsculas pessoas. Tentamos, mas não conseguimos abrir a tal gaveta com nossos pulos contra a parede.

De repente, a gaveta é aberta e a menina por quem andei suspirando ultimamente é quem a puxava. Naquele momento tive a dúvida se eu era pequeno demais para ela ou se a paixão por ela se tornou gigante. Ela guardou outras pessoas na gaveta. Éramos seus brinquedos e eu certamente não era o seu favorito para colocar-me na estante, em destaque.

Outra materialização no meu sonho e estávamos sozinhos no mesmo auditório do início do sonho. Somente eu e ela, aquela por quem andei suspirando ultimamente. No fundo tocava “Burning Love”, do Elvis Presley e eu dançava com ela. Dançávamos como se estivéssemos ouvindo o próprio Rei tocando ao vivo, apenas para nós – dois amantes perdidos, queimando no fogo de uma paixão improvável.

Ao final da música, quando o som diminuía, comecei a cantar Beatles, pedindo para ela fechar seus olhos, que eu a beijaria. Amanhã eu sentiria falta dela, mas eu sempre seria verdadeiro. Ela fechou seus olhos, o que me fez ficar paralisado por alguns segundos, até beijá-la. Beijamos enquanto “You Gotta Be My Baby” do George Jones começava a tocar ao fundo, nos forçando a dançar como se não houvesse amanhã.

Acordei. Acordei e tudo foi apenas um sonho. Essa é a minha lembrança. Eu ainda não estou morto. Eu ainda não morri. A tatuagem no meu braço me lembrou dela e eu suspirei um pouco mais, desejando viver naquele último sonho. Senti um gosto precoce de morte ao acordar e perceber que às vezes os sonhos podem ser confusos, mas que temos controle sobre eles.

Liguei para ela naquela noite e ao fundo pude ouvir “It Won’t Take Long” do Rolling Stones. A incomparável voz de Mick Jagger se confundiu com uma voz masculina, um pouco bêbado já. Pude sentir o seu bafo de gim através do telefone. Perguntei se aquela por quem andei suspirando ultimamente estava.

— É o telefone dela, mas ela está ocupada agora. Está se vestindo ali — disse o homem, enquanto ouvia as embriagadas gargalhadas dela se misturarem com sua voz ao cantar o refrão junto a Mick Jagger no rádio.

Ela encontrou seu próprio rock ‘n’ roll, em uma garrafa de gim, um rádio e provavelmente em seu vestido vermelho. E eu ainda não morri.

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